domingo, 10 de novembro de 2013

As pedras, as perdas

"Quando nada parece dar certo, vou ver o cortador de pedras martelando sua rocha talvez 100 vezes, sem que uma única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela que conseguiu isso, mas todas as que vieram antes".
(Jacob Riis)

Perco a conta das caixas de lenços de papel que tive de comprar nessa vida. Pior que isso. Não consigo fazer uma aproximação justa da quantidade de lágrimas desperdiçadas com causas e pessoas sem valor. Ops! Na verdade, essa percepção "desvalorizada" das causas e pessoas pelas quais já chorei geralmente chega atrasada. Explico. Às vezes, muitas das vezes, eu me acabo de chorar e fazer drama, me desespero e vivo um luto intenso para só depois fazer uma avaliação mais justa e ressignificar a dor da perda.

Em mim parece que dói mais a sensação de perder do que, de fato, o afastamento/a extinção de determinada relação ou situação. Acredito que isso tem a ver com o olhar, relativamente trágico, com que enxergo as relações. Digamos que as perdas que já vivi me fizeram condicionada para não acreditar na manutenção de nada. Entretanto, e contraditoriamente, a cada nova perda eu sofro, não simplesmente pela perda em si, mas pela repetição de todo um ciclo.

Aí vem a proposta da Gestalt-Terapia de fazer com que o sujeito (no caso eu) se aperceba. Mas, e porque tudo tem um "mas", não consigo até agora perceber o que me leva a associar uma perda com a outra. Será a sensação de rejeição e abandono? Será a perspectiva de perpetuidade desse ciclo de desejar, ter e perder? Será a falta de autoconfiança? Como romper isso? Como quebrar essa pedra?

Então me deparo com uma infinidade de interrogações para as quais minhas conjecturas não conseguem responder satisfatoriamente. Tenho andado entre pedras, mas por mais que eu tenha aprendido com as perdas, parece que ainda estou longe demais para superá-las. Sigo martelando por aqui, uma hora ou outra, elas hão de ceder. São tempos difíceis para os cortadores de pedras...

sábado, 9 de novembro de 2013

A difícil arte de ser quem é



Ele, então, me perguntou: Amanda, você faz alguma coisa que realmente gosta?


Lembrei de uma frase muito forte a esse respeito: “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem” – Rosa Luxemburgo. Acontece que muitas vezes, em decorrência da acomodação ao olhar e à vontade do outro, ficamos parados, imóveis, inertes. Ficamos subjugados, pois achamos que o conforto de agradar e ser aceito vale mais do que a satisfação de escolher e de ser quem somos. Não sei se esse é um problema e um desafio apenas para mim, mas infelizmente percebo-me muitas vezes em volta da escolha de me anular e anular minha vontade, para seguir a expectativa de outrem. Com o passar do tempo, de tão acostumada que estou, esqueço até mesmo o que realmente gosto e do que me dá prazer. E nessa hora de confusão, de desencontro, me vem uma forte dúvida: quem sou eu? Exercitar minha vontade, dentro dos limites sociais e legais, tem sido um importante desafio de auto-descoberta. Dizer não ou sim, conscientemente. Fazer o que me dá prazer sem me sentir incomodada ou culpada. Aprender a separar o "outro" do "eu", e a me focar mais no "eu". São tarefas que parecem primárias (e talvez sejam), mas para mim só tem sido, com algum custo, executadas agora. O medo da solidão, do abandono pode justificar esse comportamento, entretanto, perceber quão bom pode ser desfrutar o tempo consigo mesmo é algo libertador. Estou bem e feliz comigo mesma, posso estar acompanhada ou não. Posso escolher sair ou ficar em casa. Posso decidir o que vou fazer com meu tempo e recursos. Eu posso, eu escolho, eu decido. Longe de ser uma atitude egoísta, é um exercício de "ser".

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Não sei se caso ou compro uma bicicleta

Não sei se caso ou compro uma bicicleta. Eis um dilema que não se resume em si mesmo. Ando pensando nessa cultura machista que ainda povoa o pensamento brasileiro, na qual a mulher só é completa se casar. Cada dia me distancio mais desse sonho de casar, ter filhos e ser feliz para sempre, da forma convencional. Não é que não queira isso para mim, é que simplesmente não sei se quero isso para mim. Uma diferença, sutil diferença, mas que muda tudo. 

Resta comprar uma bicicleta, que, além de não anular a possibilidade de um casamento mais tarde, há de me proporcionar um pouco de mobilidade nessa caótica Fortaleza lerda... O certo é que não dá para esperar durante três horas e não aparecer nenhum ônibus ou topic com capacidade de me transportar com dignidade e ter que andar por dois terços do caminho para casa a pé, até conseguir um transporte minimamente "entrável".

Como dizem por aí, não está fácil para ninguém. Daqui a pouco vai ser preciso esperar que o príncipe encantado apareça mesmo montado num cavalo e torcer para que seja príncipe mesmo e não um assaltante. É, até disso tem por aqui. Pegar ônibus é correr o risco de ser asfixiado, esmagado ou assaltado. Amar é correr o risco de ser rejeitado, traído ou abandonado. Resta comprar uma bicicleta, pois como diria a poetisa contemporânea Ivete Sangalo (tsc tsc): "Amar a pé, amor, é lenha".

Resta-me rir, tentar fazer piada e ironizar as dificuldades do cotidiano. E vou, caminhando e cantando e seguindo a canção. Vou, sem lenço e sem documento, sem celular ou bem valioso. Vou, por quê não? Por quê não?

É, não sei se caso ou compro uma bicicleta, não sei mesmo...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dia de consulta médica

Saí do consultório pesando 20 quilos menos. Não, não fiz redução de estômago. Apenas fechei mais um ciclo. Saí leve, feliz, confiante. Aproveitei a "viagem" e caminhei até a clínica em que fazia pilates. Cheguei perguntando se me aceitavam de volta e fui recebida com um grande sorriso e elogios. Sim, sei da lógica mercadológica, mas prefiro acreditar na sinceridade da gentileza alheia, porque afinal de contas com ou sem elogios voltarei a frequentar as aulas de pilates naquele lugar. Mesmo assim fiquei satisfeita com a recepção e ainda mais confiante para essa nova fase.

Eu que sempre tentei me esconder, passar desapercebida, me sinto ultimamente completamente exposta. E felizmente já consigo me expor sem tanto medo do olhar do outro. Enquanto nas outras idas ao médico, eu passava a hora de atraso do profissional lendo algum livro, hoje pude conversar um bom tempo com uma estranha e trocar risos e cumprimentos com a família de uma futura enfermeira, estudante da Unifor e cuja mãe não se importa que o curso não dê muito dinheiro, desde que a filha possa ter um salário de R$ 3 mil trabalhando seis horas no PSF de algum interior da vida. 

Achei o máximo toda essa troca, me senti meio antropóloga, meio humana. Não lembro de ter conversado com estranhos nos últimos tempos, mas foi bom. Assim como ontem, com a mulher que estava à minha frente na fila do supermercado. Ela olhava de esgueira para mim e eu imaginando que ela me reconhecia de algum lugar. De repente a senhora se encorajou e me perguntou se meu cabelo é natural, expliquei que a parte cacheada é e ela soltou uma exclamação seguida de um sorriso, elogiando a beleza do meu cabelo. Poxa, não tenho lembrança de já ter recebido qualquer elogio pelo meu cabelo natural. Mal sabe ela, mas aquela senhora me fez fechar mais um ciclo. (É muita gestalt acontecendo!) 

Sei que o caminho de me aceitar como sou é longo e não facilmente trilhável, mas estou nele e percebo que não posso (e não quero) voltar atrás. Sabe o efeito dominó? Pois é, ele tem acontecido comigo, mas ao invés de peças caindo, vejo cadeados se abrindo. Não é fácil de viver, tampouco acredito que seja simples compreender do que falo, mas o importante é registrar que a vida acontece a medida que permitimos, estamos abertos e damos abertura. Muitas vezes me acho a pessoa mais aberta do mundo para a busca de conhecimento interior, mas não. Sou sabotada por meu ego, pelos meus exageros, pela minha intensidade. Sou assim? Tenho que integrar esses aspectos meus? Não sei, mas estou em busca...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Quando uma imagem vale mais que palavras


E lá fui eu, feliz da vida depois da minha última catarse, ops... postagem, fazer aquela divulgação básica do blog no Facebook quando me deparo com essa imagem. Confesso ter uma certa ambivalência com relação aos meus escritos, pois ao mesmo tempo em que divulgo, morro de vergonha quando alguém comenta ou menciona que leu. Sinto-me despida diante do leitor, o que é bom de certo modo, porém igualmente embaraçador... Mas, voltando, fui procurar uma imagem para ilustrar minha divulgação e o Sr. Google me presenteia com esta. Poucas imagens conseguem me descrever tão bem neste momento, neste processo. Então, deixo-lhes à vontade para se deleitarem e fazerem sua própria interpretação e reflexão do que estou querendo mostrar/ falar/ compartilhar...