quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Independência ou morte?

Tomo meu ônibus costumeiro de volta para casa. O mal-estar é tanto que sufoca minha capacidade de racionar. Antecipo minha parada e vou procurar por você.
Entro ofegante, suando, nervosa. Mais bagunçado que meu cabelo são minhas ideias, minha dúvida, minha intensa confusão.

São tentativas diárias de não surtar. São demandas que eu não tenho como responder. Sou uma só, tenho tão pouco. Mas vou, faço, ouço, tento insistentemente te mostrar que sou tão humana, tão frágil ou tão vulnerável como você. Mas é em vão. Me perco em meio ao vão que é insistir com quem não se importa. Gasto meus últimos centavos na última ligação. Foram meus últimos minutos. Eu tentei.

Bato na porta, chamo, ligo, pergunto, imploro. Mas não é sim nem não. Apenas silêncio, indiferença. A sensação de inadequação, de auto-ojeriza, o medo, a falta de espaço e de ar.
Não há lugar, - para mim, para meus pensamentos, para minha vontade, para o que eu não sei explicar - e em meio a tantos espaços vazios, eu me despeço.

sábado, 13 de agosto de 2016

13

Eu procuro escrever sobre minhas experiências. Sobre situações que enfrento, sobre medos, sobre pequenas, ou grandes, vitórias. E, na maioria das vezes, o blog acaba assumindo a função de diário, testamento de recordações.


Mas se eu for pensar, e contabilizar meus dias, certamente lembrarei de momentos ruins, de dias em que simplesmente acreditei que não dava mais, que não ia aguentar. A memória prega peças, mas, para mim, sempre foi, e continua sendo, bem mais fácil recordar os dias de "bad".


Hoje, dia 13, dia que recebeu um significado especial desde 13/08/13, devido a uma cirurgia envolvendo o risco de perder meu útero, quando tive de enfrentar um pesadelo e saí, embora com cicatrizes, inteira.


Mas são muitos os dias 13, em sua acepção de terror, de falta de sorte, de coisas ruins que acontecem, de eu me sentir no fim da estrada, sem saber ou ter para onde ir.


Aquela rede social me traz uma lembrança de 4 anos, em que eu falava sobre enfrentar medos. E hoje, esta lembrança, me deixa ainda mais triste do que já sou. Imagino o quanto algumas posições me deixam vulnerável. O quando alguns sentimentos me deixam cautelosa. O quanto algumas pancadas me deixam desanimada e sem coragem de enfrentar a vida e os agressores.


E é difícil não ser saudosista ou mesmo me sentir usando uma carapuça de vítima, é irresistível. E, como em tantos momentos já experimentados, eu olho para frente e não enxergo nada. Sinto gana de parar, de me esquivar, de desistir.... Mas como? Como não assumir a responsabilidade pela vida que eu tanto prezo e tento, com toda paciência e coragem, fazer dela algo melhor?


Como desistir de mim e assumir ou deixar que alguém assuma a consequência pela minha ausência, pelo medo e covardia que me invadem? Eu tento respirar, mas parece que os pulmões estão sobrecarregados, e em meus olhos e ouvidos eu assisto a histórias ruins que não param de se repetir.


Procuro por entre as paredes, sujas e bagunçadas, do meu interior uma razão para tudo o que estou sentindo. Procuro ao meu redor alguma saída, alguma maneira de me sentir melhor, mas tudo cada vez mais parece silêncio e dor. E se a dor física é incômoda, essa dor que emana de bem dentro da alma é algo insuportável. Não há como não sentir, não há como ignorar. E o apelo da vida é de seguir adiante, mas como?


Parece que tudo são perguntas sem respostas, e são perguntas demais... Eu não sei responder, não sei qual é a fórmula - mágica, física, matemática, se qual for - capaz de me devolver um lampejo que seja de lucidez. E as horas passam... Eu passo com elas e paro nelas.


Até onde?
Até quando?
Quanto mais?
Será que aguento?


Tudo é barulho e calmaria.
E eu, confusão.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Das coisas que aprendi com meu cabelo cacheado

Às vezes me parece que a vida é um grande jogo de blefe. Não importa realmente o que você é, e sim o que você transmite. Passei dos 15 aos 27 anos fazendo químicas de relaxamento/ alisamento em meus cabelos. Nessa época, não tinha a menor vontade de conhecer como era meu cabelo de fato. Importava mais, a mim, controlá-lo, domá-lo, torná-lo socialmente aceitável, me encaixando no padrão do cabelo disciplinado.

Hoje eu observo tantas situações em que minha atitude segue a mesma lógica de como cuidei do meu cabelo durante esses 12 anos. Não existe tempo nem vontade para realizar os cuidados necessários, então é praticamente óbvio recorrer à fórmulas que ajudem a colocar as coisas no lugar e não destoar do restante do gado. E assim vou disciplinando a minha vida a um molde absurdamente destoante de mim.

E assim acontece com amizades, com relacionamentos, com trabalho, com os sonhos de consumo e as aspirações diversas da vida (não tão) moderna.

Em 2013 eu disse a mim mesma, e por mim mesma, que não queria mais alisar meu cabelo, que não aguentava mais aquela tortura semestral e que estava disposta a pagar o preço que fosse preciso para ter meus cabelos naturais. Foi um caminho difícil tantas vezes. Meses depois de tomar essa decisão corri até o salão para novamente alisá-lo. Mas minha ficha realmente caiu e, ali no meio do procedimento, eu vi que não queria mais aquilo.

A vida e as situações do dia-a-dia me levam ao mesmo entendimento: não quero mais isso para mim. Não quero uma vida plástica, em que tudo tem uma aparência bonita, mas na verdade é oco, sem conteúdo, sem alma.

Para ter cabelos naturais, e ,consequentemente, cacheados, eu disponho de pelo menos 3 horas da minha semana de cuidados: higienização, hidratação, nutrição reconstrução, umectação, finalização... Testo produtos, sigo técnicas o mais naturais possíveis, invisto em cremes caros (para o meu orçamento) porque eu sei que nada é caro demais para eu ter o meu cabelo do jeito que ele é. E o amo. E cuido dele com toda felicidade, mesmo quando a preguiça e o cansaço da rotina me consomem. Porque faço por mim e não por quem quer que seja.

A minha necessidade, neste momento, é de também retirar todas as químicas nocivas com as quais venho nutrindo a minha alma, em relacionamentos tóxicos, em comportamentos autodestrutivos, em um desânimo que parece não ter fim. Dar um fim nisso. Abolir as más influências. Cortar. E deixar o que é natural emanar de dentro de mim e vir a tona. Parar de encenar e de tentar me adequar às expectativas dos outros

Sei, a exemplo do que experimentei com meu cabelo, que tal processo é vagaroso e provavelmente eu tenha ganas de desistir em muitos momentos. Outrossim, reconheço que a recompensa de tudo isso valerá cada lágrima, cada domingo solitário, cada vontade de desistir definitivamente. E no final, o que, e quem, virá/ permanecerá me fará entender que tudo valeu a pena.

É, a vida é assim mesmo... Nunca se pode ter tudo o que se quer, mas é imprescindível que se tenha a si mesmo, em abundância. E que se aprenda a construir a vida em bases possíveis, recíprocas e verdadeiras. Porque, afinal de contas, nenhuma maquiagem dura a vida inteira.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sobre mudanças

Estou revendo o seriado Dr. House e uma das grandes máximas do personagem é que as pessoas não mudam.

Contraditoriamente eu acredito nisso. Explico a contradição. Embora me mantenha convicta da falta de mudança substancial das pessoas, tenho consciência de que eu mesma experimentei uma grande mudança ao longo dos anos. Não se trata de caráter, valores ou algo equivalente, mas de opiniões, de crenças, de atitudes diante da vida.

Então, como descartar essa mudança se ela se processou justamente em mim?
Mas, ao mesmo tempo, como optar por uma realidade - seja ela qual for - às custas de fé de que aquilo vai mudar, porque desse jeito que está não é tão bom?

Eu prefiro escolher algo do jeito que é/está, sabendo que é com aquilo que vou ter que lidar. E não viver com a falsa esperança, e expectativa, de que aquilo vai mudar uma hora ou outra.

As pessoas seguem o mesmo caminho e esperam quase sempre chegar a lugares distintos. Os relacionamentos se fundam na busca de moldar o outro conforme suas predileções. As inúmeras separações mostram que geralmente não há mudança quando se trata de falha de caráter ou algo que o valha.

E então, o que fazer? 
Até onde acreditar que as mudanças são possíveis? 

Eu sempre me pergunto se consigo lidar com aquela situação, pessoa ou relação do jeito que está. E me pergunto também se há algo que eu possa fazer para tentar melhorar a coisa toda. Quando as duas respostas são afirmativas ou, ao menos a segunda, insisto mais um pouco.

Em muitas destas tentativas me deparei com a máxima de House: sim, realmente as pessoas não mudam. Mas em outras, felizes e raríssimas, ocasiões pude experimentar a felicidade de ver uma situação conflituosa se transformar em algo surpreendentemente bom.

Então, por que não tentar? 
Quem me conhece sabe quão teimosa e persistente sou. Não desisto fácil...
E, felizmente, há pessoas, relações e situações pelas quais vale a pena tentar novamente e dar uma oportunidade de se metamorfosearem em algo melhor.

Se em mim há a capacidade de mudar, por que eu não uso tal capacidade para melhorar? Esperar que o outro mude como condição para viver bem é um grande erro. Mas ignorar ou negar que não é mais possível seguir do jeito que está é o maior dos erros.

É preciso ter consciência também dos limites de cada um, seus e do outro, e saber respeitar o outro sem desrespeitar a si mesmo. Uma nova oportunidade que fere a moral e os sentimentos de que a está dando é sinal de que algo não está bem.

Amar é bom, mas só é bom se esse amor começar dentro de nós para daí fluir para qualquer direção
"Amar e mudar as coisas me interessa mais". :)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ao meu presente especial

Passei por muitos momentos difíceis ao longo dos últimos 11 - 12 anos, e estes momentos foram responsáveis por me esculpir de certa forma. Acabei me tornando mais forte, mas também mais dura. Acabei me preparando para o pior, mas também esqueci - muitas vezes - de acreditar que algo de bom poderia me surpreender. Foram estratégias de sobrevivência para lidar com a solidão, mas que acabaram fazendo com que eu me fechasse mais e mais no meu mundo de dor e desamor.

Claro que neste caminho difícil sempre houveram pessoas do bem, amigos de verdade, que me estenderam a mão, me ofereceram o ombro e me deram palavras de ânimo para seguir adiante e tentar superar a mim mesma. E eu sou infinitamente grata a cada uma dessas pessoas maravilhosas que cruzaram meu caminho e me fizeram acreditar que nem toda a humanidade está perdida, que ainda existem pessoas que se importam umas com as outras e que fazem deste mundo algo um pouco menos insuportável.

Mas hoje eu quero falar de presente, quero falar de hoje e quero falar daquele presente surpresa que apareceu quando estava de bobeira e puff... simplesmente surpreendeu. Com ele foi assim, insistentemente obstinado a chamar minha atenção, depois de um ano do meu silêncio, ele acabou conseguindo algo mais. E o relacionamento aconteceu. Houveram momentos em que tudo foi tão complicado e confuso que, às vezes, não entendo como conseguimos chegar aqui, mas chegamos surpreendentemente muito melhores do que jamais poderíamos imaginar.

Ele que a cada dia me faz sorrir um pouquinho mais, faz eu me emocionar com suas fofuras meigas, faz eu me superar e querer ser melhor. Ele que me inspira os melhores sentimentos e atitudes, que me faz acreditar em tantas coisas que eu julgava perdidas para sempre dentro de mim. Ele que me traz paz com seu abraço de urso, que me faz perder o ar sério costumeiro e rir feito uma boba das besteiras bestas que a gente vê pela internet. Ele que tira meu sono com seu ronco persistente, que é chato e dramático - como eu, e que faz tudo parecer tão sincronizado.

Ele que me faz sentir, perceber e querer o amor.
Este amor que é construído dia após dia,
amor amigo,
amor cúmplice,
amor empático,
amor companheiro,
amor recíproco,
amor vida real, sem máscaras, sem faz de conta.

E é assim, sem me estender nessa pieguice que me inunda nestes últimos tempos, que eu quero simplesmente deixar registrado que ACREDITO em dias melhores, porque o presente tem se mostrado especial o suficiente para me fazer ir além da realidade sufocante que me cerca e aspirar mais, e ir em busca de mais, e fazer o que for preciso para que esta felicidade que sinto agora seja presente em outros tantos dias, até quando tiver de ser, porque eu mereço, porque a gente merece.