sábado, 20 de setembro de 2014

Sobre a arte, a dança e a liberdade


Eu poderia dizer muitas coisas sobre o que a dança significa em minha vida. Eu poderia descrever cada sensação extasiática que invade meu corpo e mente sempre que subo em um palco e olho para a plateia. Poderia, mas não vou.

Hoje quero me ocupar apenas de perceber o transbordar da arte em minha vida e suas repercussões em minha autoestima, autoconfiança, crenças e percepções.

O contato com a arte sempre foi de uma ânsia enorme dentro de mim. A música, o cinema, a fotografia, a literatura e, por fim, a harmonia dos sabores, cores e cheiros me faz sentir algo muito próximo das minhas experiências espirituais. Minha sede de infinito não poderia ser melhor saciada.

Deus está em tudo, simplesmente porque Ele está em nós e na arte a qual nos dedicamos. Antes de uma busca catártica, a arte é uma aproximação com nossa essência, com o cheiro que exala de dentro de nós, com nossa busca individual e com a força criativa que aflui quando somos quem somos, quando estamos em harmonia pessoal e coletiva com nossa essência.

A busca por integração, por inteireza, por autoconhecimento e por verdade nos traz paisagens sombrias e hostis, mas se continuarmos olhando, perceberemos que, por trás do árido, o colorido floresce, o vento sopra e as pessoas bailam, cantam, riem.

Fui uma criança que sonhou ser bailarina, me tornei uma adulta que não consegue se afastar a dança, mesmo que o ambiente externo seja desfavorável, mesmo sendo autocrítica e dura demais. No fim, a alma vence, a sede de algo mais sussurra convincentemente: "- Não desista!".

E assim, eu danço. Não porque eu saiba dançar, não porque eu seja graciosa e me sinta confortável, mas porque minha alma anseia por isso. É tão vital como o ar. E quando eu subo no palco, assim como quando eu levanto a cada nova manhã, eu posso olhar para o público, me angustiar, pesar minhas incapacidades e sair correndo ou simplesmente me jogar, aprender, aperfeiçoar, sorrir das minhas imperfeições a aproveitar cada momento.

Às vezes a vida acontece e estamos tão envoltas em cobranças internas que não percebemos o brilho dos holofotes, a graça de acertar um passo e o tempo da música que nos clama movimento. Rosa Luxemburgo disse que "quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem", deste modo, como pensar a liberdade estando estanques de corpo, alma e/ou pensamento?

Liberdade é decisão, é atitude, é forma de olhar a vida, é, em última ou primeira instância, decisão. Hoje eu acordei feliz demais. Ontem dancei no Ahlan Awan Sahlan - Mostra de Alunas 2014, do Instituto de Danças Àrabes Juliana Jaraj. Já é o segundo ano em que participo de festivais do Instituto, foi minha quarta subida ao palco na Dança do Ventre. E hoje eu percebi que é preciso seguir adiante, não basta descobrir os instrumentos e chaves que libertam, é preciso saber utilizá-los da melhor forma, consciente da função que exercem em minha caminhada interior e exterior.

A vida me deu a dança e eu escolho renovar, a cada dia, o desejo de me aproximar de mim, da minha alma, do meu poder feminino, da minha intuição, do meu eu, do meu próprio corpo, sendo uma aprendiz corajosa na labuta diária, sob os holofotes e/ou no meu silêncio mais íntimo, estando onde estiver e construindo pontes com meu infinito particular e com toda a vida que me cerca. Colorindo novas páginas, ativando flashes e ampliando meu olhar, meu sentir, meu agir e meu ser, para além do que se enxerga, para além do que se espera, para o que é... Livre, leve, solta e dançante, porque, afinal, como disse Nietzsche:

"Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma risada!"


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